terça-feira, 20 de setembro de 2016

A terceirização e o choro da jornalista


A moça foi uma das inúmeras contratações do novo diretor de redação do Estadão, aquele que, tristemente, ficou famoso por ter assassinado a sua ex-namorada, também contratada por ele para trabalhar no jornal.

Muitos de nós, veteranos da equipe do caderno de economia, nos surpreendíamos quando ficávamos sabendo, por uma indiscrição de alguém, que os salários dos que chegavam eram muito maiores que os daqueles que estavam, como se diz, havia anos carregando o piano na labuta diária - uma jornada de trabalho que se estendia às madrugadas e raramente era inferior a 10 horas de tremendo desgaste físico e mental.

Não foi só o fato de a moça ganhar mais que nós que provocou uma antipatia quase instantânea à sua figura: ela fazia questão de ser desagradável, evitava se integrar à equipe,e  não abandonava aquele ar de superioridade, ofensivo a qualquer pessoa de personalidade adulta.

Fora isso, era uma jornalista medíocre.

Por tudo isso, foi com surpresa que recebi, certa tarde, seu convite para "tomar um café" - se tanto, havia conversado com ela uma meia dúzia de vezes, todas sobre assuntos estritamente profissionais.

Curioso, fui ver o que ela queria.

E acabei conhecendo com mais detalhes como é perverso este sistema capitalista em que vivemos - e como as pessoas fazem de tudo para torná-lo ainda pior.

Segundo seu relato, o famigerado diretor de redação exigiu que ela fosse contratada como pessoa jurídica, ou seja, não pela CLT, com carteira assinada, como manda a lei. Como o salário era alto, e ela precisava do emprego, topou.

A sua provação começou quando foi se acertar com a burocracia do jornal. Não tinha empresa, teria de criar uma. Feito isso, seria necessário contratar um contador para cuidar do pagamento dos impostos, tributos e taxas da firma e emitir as notas fiscais. Ficou ainda sabendo que não receberia o 13º salário, nem férias, nem haveria para ela Previdência Social ou FGTS.

Fez as contas e chegou à conclusão que o seu salário líquido seria bem menos que a metade do bruto.

Desesperada, implorou para que a contratassem formalmente.

A resposta do abominável diretor de redação não poderia ter sido mais cínica: tudo bem, desde que seu salário seja cortado pela metade.

Lembro que em certo momento desse seu desabafo, a moça chorou: foi quando me disse que tinha um filho para sustentar sozinha e dependia desse seu novo emprego. 

Mas não me lembro o que eu falei para ajudá-la ou, ao menos, consolá-la - o fato é que eu não podia fazer nada de prático.

Pouco tempo depois me demiti do Estadão.

Fiquei sem saber como ela resolveu o seu dilema. 

Apenas imagino que, como tantas outras pessoas, ela tenha se sujeitado a trabalhar por um salário vil, que apenas lhe garantia a sobrevivência. (Carlos Motta)

2 comentários:

  1. Infelizmente é assim meu caro Motta. As garras do capitalismo selvagem agora estão prontas para sangrar um povo que bateu panelas sem saber porque!

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  2. http://olharforadacaixa.blogspot.com.br/2017/03/classe-media-tola-e-reacionaria.html

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